"Não tenho nada a escrever
Tudo que me descreve está morto
O sangue, a vida, o ser
O vento, o azul, o suave,
As estrelas que dançavam em meio à você.
Dura e cruel realidade.
Minh’alma não pulsa mais como antes
Tornei-me marionete do simples e do cotidiano.
Criatura Patética, medíocre e senil
Dominado pelo sistema automático e sistemático
Ateu e teocrata em mistura, maldito em química vil.
A poesia me gagueja aos ouvidos
Soa-me como chacota e deboche,
Se som tivesse, diria: é soneto de mágoa.
Nem vinho, nem dança me agradam
Ao contrário do milagre, se desvirginam e se prostituem,
Deformam-se em água.
A caneta que me escapa às mãos,
A sanidade louca que se esfumaça num devaneio.
Envolvo-me num mundo desconhecido do meu.
A vida real me enforca, me sufoca verdade e constância, medo.
Até quando terei que suportar essa dor.
Dor do belo devorado
Pelo pó cinza da razão, do sim senhor, do não senhor.
Será que tudo que antecedeu foi em vão e sem meta
Arma obsoleta na mão do soldado
Pena sem tinta e morta, na mão aleijada do poeta."
Despertar ao avesso - Cristiano Martins.
Lido em voz baixa é imperdoável não poder escrever a voz, em qual sílada falha, se espera a vírgula... Quando o poeta é vizinho a gente tenta adivinhar isso dele na gente. Então me esforço nas aspas, embora pareça um pedaço dormente meu pegando ritmo de letras. E aplaudo assim, gritado; é meu troco.



